O CFO que apresenta essa premissa para o conselho está prometendo o que o mercado não vai entregar. Vimos esse erro silenciar reuniões inteiras de revisão orçamentária no último mês. Decidimos escrever este artigo enquanto a janela ainda está aberta.

O número que aparece no slide e o número que aparece na fatura

Em 29 de abril o Copom cortou a Selic pela segunda vez consecutiva, levando a taxa a 14,50%, por unanimidade. O Focus já projeta 13,00% no fim de 2026. Foi o segundo movimento do primeiro ciclo de afrouxamento desde maio de 2024. CDI, irmão da Selic, em 14,83%.

Esses são os números do slide.

O número que aparece na fatura do banco de uma empresa com R$ 80 milhões de faturamento é diferente. Capital de giro de curto prazo, sem garantia robusta, sai entre 22% e 27% ao ano. Antecipação de recebíveis, dependendo do sacado, acima de 30%. BNDES Crédito Direto Médias é mais barato, mas tem prazo, exige projeto e não cobre giro puro.

A diferença entre 14,83% e 25% é o spread bancário. E essa diferença não cai na velocidade da Selic.

(Os 22 a 27% citados são estimativa setorial RCM Nexus, baseada em conversas de mercado e benchmark histórico. SCR.data do BCB tem decomposição por porte, mas não em tempo real.)

Por que o spread não acompanha, e por que o seu orçamento ignorou isso

Três razões estruturais. Nenhuma é nova.

Capital regulatório. O banco precifica o capital próprio que aloca em cada operação. Esse custo não muda quando o BC corta Selic. Muda com Basileia, apetite ao risco, recomposição de carteira. Nada disso em ciclo de 60 dias.

Risco de crédito PJ mid-market. Inadimplência subiu em 2024 e 2025 e ainda está em normalização. Banco que precificou para cima em 2024 não baixa preço imediatamente porque a Selic recuou, espera ver a inadimplência da própria carteira voltar a níveis pré-stress. Defasagem típica: dois a quatro trimestres.

Competição limitada. Empresa de R$ 60 milhões de faturamento não tem a tesouraria do JP Morgan disputando seu funding. Tem três a quatro bancos relacionais que precificam por referência mútua. Sem pressão competitiva para antecipar repasse.

A consequência é simples: a transmissão monetária para o segmento que a sua empresa habita é mais lenta, mais amortecida e mais sensível a ruído externo do que para grandes corporações.

O CFO que projetou queda linear de Selic no orçamento de 2026 não está fazendo planejamento. Está pedindo desculpa antecipada para a reunião de conselho de julho.

A ata do Copom de abril e o que ela diz nas entrelinhas

Quem leu o comunicado de 29 de abril com cuidado encontrou três sinais que muitos board packs não incorporaram.

Primeiro: o Copom retirou a sinalização sobre fiscal. Antes se posicionava sobre disciplina fiscal como variável-chave. Agora calou. Não é otimismo, é cautela diante da incerteza externa.

Segundo: foi citado explicitamente o conflito no Oriente Médio como driver de risco. Risco de escalada cambial via commodities de energia. Em cenário de risco-off forte, o BC pausa.

Terceiro, e mais importante: o Copom escreveu que há espaço para calibrar a extensão do ciclo. Não a profundidade. Em linguagem de banco central, isso significa cortes possíveis, mas com piso mais alto do que o mercado vinha precificando.

Some isso ao fato de que o próprio BC já admite IPCA 2026 acima do teto da meta, projeção de 4,60% contra teto de 4,50%. Sétima alta consecutiva nas projeções Focus. O que se desenha não é ciclo profundo. É ciclo curto.

Ciclo curto não comprime spread bancário na velocidade que o orçamento da sua empresa assumiu.

Três cenários para o seu board pack

Substitua a frase "Selic em queda" por uma tabela com três cenários e uma coluna explícita para custo efetivo de capital mid-market.

Mesmo no cenário base, o consenso, o custo efetivo permanece acima de 21%. O intervalo entre otimista e pessimista é de cerca de nove pontos percentuais. Esse é o tamanho real da incerteza.

Se o conselho está vendo orçamento aprovado com WACC fixo baseado na premissa otimista, alguém vai precisar reabrir aquela discussão. E WACC errado contamina cada decisão de capex, M&A e funding tomada com base nele.

Cinco perguntas que CEO e conselho deveriam fazer ao CFO esta semana

  1. Quem dimensionou os três cenários acima no orçamento de 2026, ou ainda há WACC fixo no plano vigente?
  2. Quem está renegociando repricing das linhas PJ ativas enquanto a janela está aberta, ou estamos esperando junho para começar?
  3. Quem está stress-testando capital de giro em pessimista, ou só temos o caso base no slide?
  4. Quem está calculando o impacto da curva real (CDI + spread) sobre o critério de aprovação de capex, ou ainda usamos hurdle rate baseado na Selic do telejornal?
  5. Quem está liderando a conversa com banco e fundo sobre estrutura de funding 2026, o CFO interno, o CFO consultor, ou ninguém?

Se quatro dessas cinco respostas forem evasivas, há trabalho urgente.

A janela está aberta, e não vai ficar

Cost of capital de 2026 não é número fixo. Muda no calendário do Copom, não no calendário do Excel.

A janela atual, entre maio e a próxima reunião do Copom em junho, é favorável para renegociação de linhas pré-existentes. Bancos receptivos. Não é compromisso. É abertura conjuntural. Quem não usar essa janela vai pagar mais caro no segundo semestre.

Tenho dito.